TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO

Este talvez seja o transtorno mais difícil de explicar. Vamos começar descrever seus principais sintomas e depois tentar explicar o funcionamento mental do indivíduo com este transtorno. O Toc é conhecido como transtorno das manias. Mania de limpeza é a mais característica, mas ela pode se expressar de muitas outras maneiras. Mania de ordem (a pessoa precisa arrumar as coisas e colocá-las em ordem, manias de colecionador, superstição (pessoas que precisam bater três vezes na madeira, que só saem com seus amuletos, têm medo do azar e fogem de gato preto), mania de contar as coisas, fazer contas com as chapas de carro, mania de trancar e reverificar se trancou as portas e praticamente todas as outras manias, hábitos (não vícios) que você possa imaginar.

A mania fica caracterizada como doença, como transtorno, quando a pessoa tem a necessidade de repetir os seus atos de forma compulsiva, repetidamente. Ou seja, a pessoa não consegue se controlar; o ato não depende de sua vontade: ela faz sem querer ou sem perceber, ou ainda não consegue impedir o ato pela sua vontade. Daí o nome compulsiva, obrigatória. Aliás, todas as formas de repetição compulsiva podem ser caracterizadas como “manias”.
 As pessoas que têm estes sintomas costumam ter uma personalidade muito própria. São pessoas extremamente escrupulosas (têm uma preocupação na mente de não provocar problemas), costumam ser formais e distantes no relacionamento, frios afetivamente, podendo ou não ser pessoas arrogantes. Costumam ser autoritários quando ocupam postos de liderança, e temerosos e tímidos quando não estão nesta posição. Intimamente, são medrosos,embora não admitam, fazendo um tipo de fortes. Não costumam ser sociáveis, tendo poucos amigos, dependendo do grau da neurose. Têm um comportamento normalmente calmo ou retraído, mas às vezes têm explosões que podem ser surpreendentes e até assustadoras (pela agressividade e violência). São pessoas metódicas, às vezes exageradamente perfeccionistas, sendo que alguns são muito insistentes, embora a maioria desista com facilidade. Costumam ser indecisos. Controladores, têm o sentimento profundo de que, se não cuidarem de forma adequada das pessoas e situações à sua volta, algo de ruim deverá acontecer, e vivem a ilusão de que estão controlando estas situações (pelo menos quando estão equilibradas, pois a sensação de descontrole os deixa profundamente ansiosos e até emocionalmente desequilibrados).

Têm um forte sentimento de culpa interior, embora possam não ter consciência disto e nem culpa nenhuma, e, na hora das punições e mesmo das autopunições, são exageradamente cruéis, inclusive consigo mesmos. Um caso curioso que tive no consultório há muitos anos atrás foi de um homem, na faixa dos 40 anos que se queixava de Síndrome do Pânico. Na sua quarta ou quinta consulta ele se levanta de sua cadeira, tira uma chave de fenda do bolso e diz: “Desculpe, doutor, mas não consigo ver este parafuso do interruptor inclinado. Eu preciso endireitá-lo, e depois da consulta quero esconder toda esta bagunça de fios de seus aparelhos eletrônicos. O senhor deixa as coisas em bagunça e isto me incomoda muito”. Evidentemente, em determinados momentos, todos nós passamos por quadro emocional semelhante ou temos alguns destes sintomas ou traços deste tipo de personalidade. 
Por que acontece, de onde vem este quadro, é um dos grandes mistérios da psiquiatria, e existem múltiplas explicações. Uma das mais interessantes é a de Freud, que diz que estas pessoas têm sentimentos negativos, pensamentos negativos, uma espécie de tara (e normalmente relacionado a sexo e perversão), se sentem culpados e sujos por estes sentimentos, e daí a necessidade de limpar e organizar tudo como forma de diminuírem o risco do castigo de que se sentem merecedores, e para tentar compensar o sentimento de sujeira interior .
Para mim, esta é uma explicação que faz muito sentido, mas aí é que eu queria acrescentar a minha visão: como vimos nas neuroses, a ansiedade é fator fundamental de sua formação. A ansiedade ocorre por um quadro de superestimulação da mente que está reagindo aos estímulos (movimentos) externos. Por isto, nestes momentos, a mente precisa da sensação do parado, do protegido, para se acalmar e se sentir segura e tranquila. Quanto mais movimento a mente absorve, quanto mais ela se sente insegura e desprotegida, maior a sua excitação no sentido de encontrar uma proteção para esta sensação de instabilidade. Daí a necessidade de a pessoa realizar a sua compulsão, arrumar as coisas, ou de usar amuletos, pois elas trazem a sensação de calma e segurança para a mente. Mas vejam que círculo vicioso infernal: de repente algo acontece que tira esta organização, esta sensação de controle e domínio que a pessoa tem.

Isto a deixa assustada e com medo, pois se sente exposta. Passa a sentir um sentimento agressivo enorme dentro de si, que é a expressão de seu desejo que “as coisas” não tivessem saído do lugar. Mais do que isto, volta a sua agressividade interior para o agente que alterou “as coisas” da ordem que lhe alimentava a segurança. Ao sentir esta agressividade interna, passa a se sentir culpada deste sentimento e, de forma inconsciente, volta a agressividade contra si mesma de forma real ou imaginária. Aí aparecem os pensamentos negativos, que são chamados de obsessões, e a sensação de que algo de ruim vai acontecer. Precisam se proteger, desejam a ordem, e brigam ainda mais por ela, aumentando a sua agressividade, sua culpa, os pensamentos negativos, o medo, a compulsão, a briga, a agressividade, e assim vai. Para resumir a conversa, quanto maior o sentimento de insegurança, maior a intolerância (irritação, impaciência) para com o movimento, maior a agressividade, a culpa e, consequentemente, a ansiedade, que aumenta a insegurança, que vai gerar a compulsão. Ou seja, o ato físico que vai trazer uma sensação de alívio momentâneo, mas acaba aumentando a sensação de insegurança pela impossibilidade de realizar completamente a compulsão. A obsessão é o pensamento negativo que se repete. A compulsão é o ato físico que devolveria a segurança para a pessoa.

Tratar este tipo de transtorno é sempre trabalhoso. Até alguns anos atrás o tratamento trazia poucos resultados e as pessoas continuavam com as suas manias e personalidade. Hoje, o tratamento é duplo, a pessoa deve fazer um tratamento químico (medicamentoso) e psicoterápico (terapia cognitiva). A medicação é necessária para diminuir o grau da ansiedade e para aumentar o grau de energia psíquica para que a pessoa possa romper o círculo vicioso do pensamento obsessivo. Fazer a psicoterapia é necessário para se reeducar a ser menos intolerante em seus sentimentos mais profundos e diminuir o seu sentimento de culpa e a autoagressividade, com uma conduta reta, honesta e transparente. Os resultados têm melhorado muito, mas dependem fundamentalmente da capacidade de a pessoa mudar os sentimentos internos de forma verdadeira e sincera. Os remédios sozinhos acabam não resolvendo o problema.